30 de agosto de 2007

RATATOUILLE

Para os menos snobs, passe a notícia que a Pixar acertou de novo.
Parece mentira, mas há ratazanas que nos dão apetite :)
E filmes tão bem feitos que deveriam ser ensinados na Escola de Cinema. Para variar da cinematografia europeia dos anos 60, pelo menos...

21 de agosto de 2007

O AMIGUINHO

Perante as irregularidades detectadas pelo Tribunal de Contas na gestão da Cãmara do Funchal, Marques Mendes já se veio mostrar solidário. Tal como tinha feito há pouco tempo com Alberto João, o antigo inimigo.
Mas não haverá ninguém que diga a esta... caganita de fato que este estilo antigo de fazer política, enfiando debaixo do tapete tudo o que tira votos, já deu o que tinha a dar?
Oh, valha-me a nossa senhora do Paúl do Mar...!

FÉRIAS

Por assim dizer, por uns dias, no país real.
Não falei aqui de uma viagem por mar,mar a sério, nem de baleias à distância no mau tempo, ou dos golfinhos que desafiaram a proa do veleiro. E contudo, também se passou. Como também aconteceu fado com uma fadista melhor do que a Mariza - e que acha que não canta nada - agarrada à parede do navio para não cair, e o fado, o que há de mais portugês em nós, a silenciar provisoriamente amigos espanhóis. Para falar disso, teria de falar de Espanha e dos convites amigos e respeitosos pelos escritores. Aqui mesmo ao lado.

17 de agosto de 2007

DOCUMENTÁRIO

Apesar do relativo alheamento das televisões, prossigo com a rodagem do documentário sobre a vida e obra do Urbano Tavares Rodrigues.
Mesmo sem o apoio de ninguém, eu e a Filmes do Tejo lá vamos, navegando Alentejo afora.
Algumas fotos:





(fotos Miguel V.)

8 de agosto de 2007

"(...) E assim cheguei à luz de um pensamento
De que afinal um roseiral florido
Vive de um triste e oculto movimento"

ANTÓNIO BOTTO
O PROBLEMA DA RUTEMARLENE

De todo o lado me chegam convites para abrilhantar feiras do livro, colóquios,etc, etc.
É lisongeiro, dirão.
Não.
Pedem-me, como aliás pedem a toda a gente, que nos metamos no carro, façamos 100, 200, 300 quilómetros para lhes ir abrilhantar a festa, de borla. Que interrompamos o nosso trabalho, as nossas férias, o nosso tempo com a família e partamos para os locais mais afastados sem receber nada em troca. Tipo missão.
Quando se lhes pergunta quanto é que estão a pensar pagar-nos pelo nosso esforço, respondem-nos, friamente, "que não estava previsto". Que o dinheiro foi todo para os cantores, pimbas ou não, para pagar às gráficas ou para o salário da pessoa que organiza.
Num país sem ministério da cultura, em que se ganha misérias com a venda dos livros basta fazer contas a uma deslocação dessas: 10% de um livro que custe 15 euros=1,5 euros x 20 livros- que é o que se assina numa coisa dessas, com sorte - é igual a 30 euros antes de impostos. Ou seja, uma deslocação de centenas de quilómetros, mais gasolina e portagens, mais um dia de trabalho perdido por 30 euros? É este o valor que nós temos para uma vereação de cultura, ou para um organizador de feira de livro?

O que acontece é que os melhores escritores ficam em casa. Naturalmente. Sobram os que têm vergonha de dizer não e os menos conhecidos, que ingenuamente pensam que esta participação lhes "irá abrir portas". Não vai. Enquanto deixarmos que nos tratem como lixo não se abrirá coisa nenhuma. Nós não somos lixo.
E quem paga 10.000 euros ou mais a um cantor pimba também pode arranjar 200 euros para pagar para essa coisa banal que é a Cultura.
Haja vergonha!

6 de agosto de 2007

LIVRO INFANTIL

Era um bocado inevitável... Com a família a chatear durante anos:
no final do Verão, pela Caminho, sai a primeira história do mais que persistente Tomás-Teimoso. Ilustrado pelo Luís Henriques.
"Quero ir à praia!", insiste ele.

5 de agosto de 2007

PARABÉNS!

Em comunicado, o Banco Espírito Santo anunciou: "O resultado do 1º semestre de 2007 totalizou 366,8 milhões de euros, o que representa um
crescimento homólogo de 83% e um ROE anualizado de 20,5%." Ao que consta, o BCP ganhou ainda mais, embora a aventura do BPI o tenha feito perder algum, e o resto dos bancos idem.
Quero aqui saudar os accionistas ganhadores, dar-lhes os meus parabéns em nome dos milhões de portugueses que passam as maiores dificuldades para pagar as prestações da casa, do número crescente de sem-abrigo que todas as noites estende os seus cartões na rua, da população idosa que adormece com barriga reconfortada a pão e leite, dos artistas que definitivamente deixaram de ter dinheiro para comer quanto mais para criar. Do país real, em suma.
Parabéns.
Mais um bocadinho e teremos as rodas dos ganhões, com homens ansiosos encostados às paredes enquanto o capataz aponta o dedo aos que nesse dia poderão alimentar as suas famílias.
Na nossa originalidade portuguesa conseguimos fazer o tempo andar para trás. Pelas minhas contas devemos estar para aí em 1973.

3 de agosto de 2007

COMO DISSE?

Pedrito "de Portugal". o matador de touros portuga, declarou ao "Sol" ser contra os maus-tratos a animais...
Pardon?

2 de agosto de 2007

UMA ORAÇÃO DE SOPHIA

Numa altura em que os mais liberais de entre nós estão conscientes do triunfo do capitalismo mais selvagem, onde as editoras de livros ou de música lutam apenas pelo lucro, massacrando no caminho a razão inicial da sua existência, talvez este poema ajude:

"REZA DA MANHÃ DE MAIO

Senhor, dai-me a inocência dos animais
Para que eu possa beber nesta manhã
A harmonia e a força das coisas naturais.

Apagai a máscara vazia e vã
De humanidade
Apagai a vaidade
Para que eu me perca e me dissolva
Na perfeição da manhã
E para que o vento me devolva
A parte de mim que vive
À beira dum jardim que só eu tive."

Sophia de Mello Breyner Andresen
in "Dia do Mar"

1 de agosto de 2007

FILMES

Esta curta tem feito uma bela carreira em festivais. Pode ser vista aqui (por agora), no site do festival de Motovun, Croácia (um conhecido evento que ocorre anualmente nessa pequena cidade, arrastando milhares de pessoas, durante 5 dias).
DE VOLTA AO PAÍS PATÉTICO







Logo de manhã, fui aos Correios, cheios que nem um ovo. Tiro a senha da vez, faltam quarenta números para ser atendido. Decido ir ao Minipreço que está à cunha, cheio de gente deprimida e pobre que não foi de férias porque como a maioria dos portugueses anda a bater com a perna uma na outra, que é como quem diz na antecâmara da fome. Compro ovos, maçãs baratas, pão e hesito nos iogurtes Actimel que são mais caros.
De volta aos correios, espero mais meia-hora pela minha vez de levantar uma carta registada das Finanças a ameaçar-me que me vão multar por não encontrarem um pagamento de imposto, que foi pago e de que até tenho recibo, mas que o sistema maravilhoso que o tipo do BCP-Impostos não detectou. Lá irei amanhã, mais uma hora para a fila da minha repartição, para mostrar o papelinho que eles deveriam ter visto.
O país dos ruben-filipes está igual a si mesmo. Eu é que acabei de chegar e ainda noto.

15 de julho de 2007

PENSAR

Foi divertido assistir à participação das pessoas nesta criação, "A Educação Sentimental". Algumas saíram de lá mais atentas, outras apenas satisfeitas com a experiência. Houve alguns que não perceberam nada, mas gostaram das meninas.
E muitos ficaram a falar com a "Mãe Maria", no papel de senhora incapaz de triunfar numa sociedade que privilegia o egoísmo e a superficialidade.
O meu obrigado ao C.E.M. pelo convite de participação no Festival Pedras d'Água.
Aqui ficam as fotos do evento. As restantes podem ser vistas no site do CEM.






13 de julho de 2007




HOJE...

E amanhã, pela fresquinha (19h, 21h) todos à Rua Augusta, para sermos reeducados de uma forma sentimental e despachada.
Vamos, que o Portugal acrítico e egoísta espera por nós!

11 de julho de 2007

MAS POR QUE É QUE OS GAJOS MEXEM NAS COISAS?

Afinal estamos perante um consenso quase nacional: os jornalistas estão seguros que um governo que lhes acaba com o serviço próprio de saúde é para abater, os funcionários públicos têm a certeza que não é bom para eles serem avaliados pelo mérito, o governo regional da madeira que um governo que tenta impedir a corrupção generalizada com que se banqueteia é um filhodaputa e por aí fora...
Até estou admirado com as farmacêuticas que perderam o monopólio de chularem os portugueses a seu belo prazer e que ainda não arranjaram forma de destruírem este primeiro-ministro. Não devem estar a seguir as lições da Bayer, com certeza...
Nunca a inércia endémica deste país foi tão abalada, e isso, não passará sem o ressentimento do próprio objecto de melhoramento.

ps: só para esclarecer que não acredito em santos, mas que há gente cuja teimosia poderá dar frutos a longo prazo. Ah... e também não sou candidato a nenhum tacho, autárquico ou governamental. Se fosse ter-me-ia sentado na primeira fila de uma "sessão com a cultura", com a minha melhor roupa e estaria a discursar no próximo comício. Se aspirasse a director da Casa Fernando Pessoa, por exemplo.
JULY JULY....
O calor aperta e a gente não desperta...

10 de julho de 2007


OS ÚLTIMOS DIAS

Trabalhar, trabalhar, antes que o sol aqueça demasiado e as férias se instalem por todo o lado.
Nas escadas do meu prédio, os vizinhos de cima fazem uma barulheira a descer às 7.55 h. Depreendo que não seja pela alegria ao trabalho, mas sim pela perspectiva dos dias sentados nas cadeiras de campismo, do som da novela na televisão pequena com duas antenas, e o antecipar do marulhar da babugem sobre as pernas cansadas.
Um último esforço antes dos dias de felicidade em pacote.

7 de julho de 2007

AS FLORES VISTAS DE BAIXO (4)
Julgámo-nos em segurança nessa última noite, enquanto partilhávamos a terrina da sopa, onde os feijões que havíamos colhido na horta se despediam da terra. Julgámo-nos em segurança quando nos despedimos para dormir, Vale subiu até ao seu nicho dividido por um tapume de todos nós, eu trepei de um salto até à minha cama a cheirar à casca recém-cortada dos pinheiros e a mãe deu um beijo na testa de Jacinta, levada em braços pelo meu pai.
Mas enquanto as luzes se desligavam na nossa casa de madeira já eles cruzavam os campos de lírios e os ribeiros. Já mordiam buchas de pão, sem tirarem os olhos do caminho ou das tochas do guia que lhes assegurava não faltar muito.
Quando o dia nasceu, estavam tão perto da nossa casa que quase nos podiam avistar. E foi em murmúrios que os homens e as mulheres disseram às crianças e a si próprios por que razões vinham à nossa procura. Foi num sussurro que apertaram às mãos as correias que seguravam as mocas, cuidadosamente esculpidas para abrir um crânio com um golpe seco; ou afiaram as navalhas que antes tinham servido para cortar o caule de pé de milho ou uma fatia de enchido. Homens, mulheres e crianças de olhos claros que não reflectiam o dia, chegaram ao início da manhã. Tinham os pés sobre as flores.
O pai não os ouviu, com o barulho da serra, e quando os avistou, mal teve tempo de se defender. Caiu no chão com a sobrancelha rasgada e duas lanças no peito, cravadas em uníssono por dois rapazinhos gémeos de quem se esperavam grandes feitos.

3 de julho de 2007

PLANTAS E NOMES ANTIGOS


Um amigo reencaminha-me um recorte de um jornal das ilhas Baleares, que fala de uma planta antiga, cujo o nome vem directamente de Poseidon (ou Posidon) e que gostaria de pensar como lema :)
"La posidonia es una planta marina y su presencia en la orilla del mar protege la playa de la erosión de arena por la accion del mar".
Já que vivo num país que acha que os escritores e os poetas não servem para nada, ao menos nos deixem a ideia que o nosso trabalho ajuda a impedir a erosão das coisas naturais...

2 de julho de 2007

AS FLORES VISTAS DE BAIXO (3)



Dentro da casa, Vale estava estendida de costas sobre o edredão de riscas azuis. Sabia que em breve a mãe a chamaria. Mas a minha irmã mais velha era assim mesmo: dormia sobre as obrigações e sonhava com o que não se encontrava ali. Era preciso estar sempre a chamar-lhe a atenção durante as aulas de gramática. Vale imaginava-se sempre longe, num lugar livre de deveres. Um sítio onde não lhe seria exigido nada mais do que uma ordem breve, ou a expressão de um desejo. E, contudo, era a primeira a focar-se no que havia para fazer sempre que uma desgraça acontecia.
O pai não estava à vista. Mas podíamos ouvir o ruído da sua serra hidráulica, alimentada pela água do pequeno riacho (que ele apresara, de resto). O pai era assim: podíamos sempre ouvi-lo. E, se prestássemos atenção, cheirá-lo. Esse cheiro de resina de árvores e camisas suadas dava-nos a todos uma sensação de segurança. Mesmo quando as árvores pareciam crescer sobre a clareira onde ele reconstruíra a nossa casa, a partir de uma velha barraca; mesmo quando as nuvens fugiam da montanha ao fundo e se juntavam sobre as nossas cabeças para nos ameaçar com o dilúvio.
Foi ele que me endireitou as golas da camisa de flanela azul. O que me passou a mão pelos cabelos que pareciam querer fugir para longe do lugar onde os tencionava manter. Deixou-me à distância exacta a que um pai deve deixar o filho que entra para o seu primeiro baile. E permitiu entre nós o necessário silêncio. Para que eu pudesse saborear mais um pouco o riso das bocas das raparigas que, excitadas, tinham partilhado comigo uma dança.